Vozes do Invisível
Dizem para escutar a voz do coração — mas nem sempre é fácil.
No meu caso, mesmo quando me esforço por escutá-la, a minha mente começa a falar demais, cheia de lógica e de raciocínios, e acabo por já não saber o que pertence de facto ao coração.
Quando desenho, sobretudo naqueles momentos em que sinto uma urgência incontrolável de criar, é como se se tratasse de um processo de expurgação: algo que a mente não compreende começa a brotar por si só.
Esses traços ficam a viver no meu caderno de esboços e, quando volto a olhá-los mais tarde, compreendo: “ah, afinal era isto que sentias.”
As coisas têm muitas faces, e consoante o ângulo ou o momento em que as vemos, podem revelar cores totalmente distintas. O mesmo acontece com os meus próprios desenhos: ao revê-los em diferentes instantes, aquilo que sinto diante deles muda.
Quando alguém observa uma obra e é tocado por ela, essa pessoa acaba também por estabelecer uma ligação consigo mesma através da criação do outro. Essa ligação pode surgir de uma memória, de uma história ouvida, de alguém, de um sonho, ou de uma emoção guardada no tempo.
No fundo, estamos todos entrelaçados por gestos e sensações partilhadas.E diante daquilo que nasce do invisível, cresce-me uma ternura funda.